Por Simone Moura


A pandemia que atingiu em cheio o mundo, mudará o comportamento de consumo das pessoas para sempre. Ainda que já estejamos assistindo a reabertura de estabelecimentos comerciais em alguns países e regiões do Brasil, é difícil prever uma retomada das práticas de consumo do mesmo modo que há alguns meses atrás ocorria.
O desemprego em alta, a redução da renda das famílias, o endividamento somados ao distanciamento social, são os principais fatores que irão levar a maioria das pessoas se comportarem de maneira diferente. Consumiremos menos e compraremos o “básico”. Muitos artigos literalmente deixarão de ser comprados, levando nossa economia e nossos negócios para uma realidade bem complicada e bastante complexa.
Os países mais pobres e em desenvolvimento – o que é o caso do Brasil infelizmente - a situação que já era caótica e somava 12 milhões de desempregados, terá nos próximos meses uma população entre 23 a 25 milhões de pessoas sem ocupação profissional.

 


A pandemia também acelerou algumas tendências. A primeira delas e a mais óbvia são as compras online. De fato elas cresceram, mas cresceram para quem possui estrutura e capital de investimento. Ainda existe uma parcela da sociedade (consumidores) brasileiros que comprou pela primeira vez na internet agora ( no período de isolamento social). Razão pelas quais deveria existir por parte das políticas públicas incentivos reais para os pequenos negócios e microempresários para que a realidade do mundo online (incluindo meios logísticos tangíveis) estivessem ao alcance de todos. Mas a realidade para o “pequeno” é bem diferente.

 


Em um mundo tão conectado como vivemos, o e-commerce brasileiro representa somente 6% das vendas de todo o varejo. Os pequenos negócios existem no modelo das lojas físicas e são o sustento de muitas famílias. E para essa parcela de empreendedores não é fácil ter tecnologia de ponta para migrar de uma hora para outra, seu modelo de negócios. Tecnologia custa dinheiro e dinheiro é o que o pequeno empreendedor não tem em caixa. Ele está cansado, apavorado e sem ajuda nenhuma.

 


Nesses tempos difíceis de pandemia também existiu um olhar para os produtos e marcas locais. Ou seja aquelas empresas e marcas que fazem parte de uma comunidade, de um bairro, de uma pequena cidade ou região, mas pelo fato de não terem apoio financeiro real dos bancos e instituições financeiras, provavelmente estão com seus dias contados porque estão se virando com o estoque atual ou produzindo diariamente conforme sua capacidade limitada com tamanha dificuldade sendo os responsáveis inclusive pelas entregas nas casas dos poucos clientes que restaram.

 


Estou falando por exemplo das pequenas padarias, mercearias, casas de lanches, hamburguerias, pastelarias, docerias e alimentos em geral - além é claro de tantos outros setores não essenciais que estão se virando como podem, para não quebrar. Esses microempresários em sua maioria, têm apenas uma única loja e não possuem infra estrutura de delivery. (uma outra tendência que já era vivida por todos nós) e que agora vai crescer ainda mais.

 

Os pequenos negócios do Brasil representam cerca de 30% de todo o PIB ( produto interno bruto), e a partir de agora, como iremos ficar ? Que vantagens reais são essas anunciadas pelos governos de postergar pagamentos de impostos ou contas de energia ? Como é que esse microempresário vai pagar essa conta depois ? Ele está parado. Não está vendendo e as contas continuam a bater em sua porta.

 


E vamos falar dos bancos (e aqui não vale a pena citar os nomes) que passaram a dominar os intervalos da programação das emissoras de TV e os portais de internet, anunciando linhas de crédito para os micro empresários. Como é que se paga os juros adicionados a cada parcela? Não seria possível termos um “grito de misericórdia” das instituições financeiras que lucram anualmente bilhões de reais e para os adimplentes adotarem parcelas fixas sem juros, com prazos largos e justos para continuarem de portas abertas?

 


Só para termos uma ideia do tamanho da maldade em que vivemos e tratamos o “motor” da economia brasileira, ( ou seja os micro negócios). De acordo com o Banco Central, a taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito saltou de 155% para 193,97% ao ano entre janeiro e março de 2020. Em empréstimos para capital de giro, os juros chegaram a subir de 48,9% para 55,5% ao ano. 

 


É mais fácil todavia para as grandes empresas se adequarem a esses novos tempos que virão. Tomarem medidas protetivas, reformas e obras que possam prover aos seus consumidores mais segurança para o distanciamento social. Além de álcool gel e até máscaras para seus clientes quando estes começarem a retornar a vida fora de casa. Até porque para os grandes, as taxas de juros e os benefícios são outros. Existe uma conta diferente para eles. Mas eu me pergunto o que acontecerá com os s microempresários. Como ficarão essas pessoas e esse mercado tão representativo para a economia do Brasil? É hora da gente respeitar e levar mais a sério quem de fato constrói todo dia esse país.