Por Simone Moura.

 

Sabe aquele tênis que quanto mais velho fica, mais insistimos em ficar com ele? Sempre temos uma desculpa que justifica mantê-lo junto da gente. Afinal de contas, quanto mais velho um tênis for, mais confortável ele fica no pé e como tudo hoje é vintage, um produto velho não sai da moda. Acontece que tem um detalhe em tudo isso que não levamos em consideração. Quando nos apegamos muito as coisas velhas e a modelos repetidos, ficamos presos no tempo e não damos chances para que outras ideias e conceitos cheguem até nós.    

 

O mercado imobiliário do Brasil, que desde 2014 vem colecionando estoques, desvalorização, prejuízos e deixando centenas de milhares de desempregados, é um exemplo disso.

 

Lembro-me de ouvir um analista econômico “renomado” que trabalha até os dias de hoje em um canal de notícias por assinatura, dizer em uma palestra para empresários do setor da construção civil que a “bolha imobiliária” jamais alcançaria o Brasil. Estava lá eu, catatônica ao ouvir aquela previsão ridícula, de uma pessoa que se dizia tão inteligente, que só tive tempo de conter o grito que estava preso na garganta, porque talvez se gritasse “ Como assim ?”, alguém iria me convidar a sair da sala. 

 

Estávamos  vivendo naquele ano, a pior crise dos Estados Unidos desde a quebra da bolsa de 1929, onde (sem entrar em detalhes) a maior economia do mundo estava derretendo. Bancos fechando, setor imobiliário decretando falência e profissionais perdendo empregos e casas. 

 

Enquanto isso no Brasil, vivíamos tempos obscuros tanto na política, na economia e em tantas outras situações, como por exemplo, a corrupção que destruiu  a reputação de um país inteiro como a nossa essência enquanto povo brasileiro. Claro que tudo que estava acontecendo era uma questão de tempo para nos apanhar, nos nocautear... e então aconteceu.  Não só o mercado da construção civil quebrou, como... bem você sabe o resto da história.  

 

Acontece que assim como aquele tênis velho que tanto gostamos, preferimos ficar repetindo o modelo porque é mais confortável e não sai da moda, os setores da economia também precisam quebrar paradigmas, sair da zona do conforto e criar modelos disruptivos. Por anos, construímos prédios adotando os mesmos critérios e valores. Todos vendem igual e acham que elevadores panorâmicos e velozes, projeto assinado com o arquiteto famoso, vagas de garagem cobertas, lâmpadas de led, vão convencer o consumidor a investir em algo que é um tanto dejavu. Isso sem contar que muitas organizações do setor, de uma hora para outra levantaram a bandeira da sustentabilidade, das causas sociais , e de tantas outras. Não que isso seja ruim ou que não seja verdade, mas continuamos a repetir modelos. Repetem tanto, que o m² para venda também é o mesmo. E de repente empresas líderes do setor com 50, 60 anos de história, perderam valor de marca em função de sua falta de criatividade, de inovação, de ousadia e de posicionamento. 

 

E desse modo, continuamos a esbarrar nas mesmas técnicas, atributos e argumentos de venda que não levarão as empresas a lugar algum, e mesmo que a economia reaja, ainda estarão lutando pelo mesmo cliente como gladiadores desesperados no meio de uma arena onde só o preço determinada a compra.  O velho e bom tênis é confortável, eu sei. Mas novas formas, novas cores, novas texturas e novas experiências podem nos dar ideias fabulosas e caminhos mais rentáveis, sustentáveis, engajados e verdadeiros de se fazer negócio.